Sábado, 16 de Agosto de 2008

Vi tantas coisas!






Nada como uma bela refeição para aproximar as pessoas. Depois de respirar, comer é a primeira coisa que fazemos ao nascer. O leite das mães nos alimenta, estar com os pais é sempre uma festa. Mas quando se trata de primos, há uma grande diferença.

Caco pensava em seu pai. Queria estar com ele naquela lanchonete. Sabia que sobreviver na selva era duro, mas na companhia do capitão Amâncio bem que poderia ser divertido. Ao olhar o sanduíche apetitoso na sua frente, imaginou o recheio de lesmas. Corajosamente, abocanhou um belo naco cheio de mostarda, enquanto Alberico procurava anotações no caderno.

— Vi tantas coisas! — disse ao encontrar a página.

Caco limpou a boca suja de mostarda, ou de lesmas.

— Este caderno está cheio!

Alberico esticou as orelhas do caderno e alisou a capa com carinho.

— Já usei em tantas pesquisas, é meu companheiro.

Afora a maluquice de chamar um caderno surrado de companheiro, aquilo era uma boa notícia. Havia tantas anotações ali que Caco achou que teria de acompanhá-lo em todos os lugares do mundo e aquela visita de primo não terminaria antes do final do ano.

Todo animado, Alberico seguiu falando.

— No caminho de sua casa até a escola notei que as ruas estavam lotadas com todo o tipo de veículos, caminhões grandes, furgões pequenos, mas nem se comparavam em quantidade com os carros particulares.

Caco bebeu um gole do refrigerante.

— Tem até programa sobre trânsito. Não ouviu no rádio da mamãe?

— Não só programa como uma rádio só dedicada ao trânsito, na minha cidade, rádio é pra ouvir música, notícia, futebol.

— Seria bom se aqui também fosse assim, mas não é. Os motoristas precisam saber onde está engarrafado pra escolher o caminho.

Alberico virou uma página de seu caderno.

— Eu tive uma idéia!

Caco sugou o resto do refrigerante, fazendo um ronco enorme.

— Acha que organizar o trânsito na cidade grande é fácil?

— Claro que não, primo, quer dizer, Caco! Mas é só uma questão matemática.

Agora sim Caco ouviu o que não queria.

— Matemática... Por isso que nada resolve.

Alberico estava tão empolgado que descobrir a América não teria nenhuma importância.

— Numa quadra de rua cabem mais ou menos vinte, trinta carros. Na maioria das vezes há somente o motorista dentro. Se todos estivessem dentro de um ônibus, as ruas estariam vazias.

— Mas o ônibus não leva todo mundo a qualquer lugar.

— Um ônibus não, mas muitos em vários trajetos, sim.

Caco não se convencia facilmente, ainda mais com aquelas idéias malucas do primo Alberico. Dizem que não é bom contrariar estes caras. Por isso, recolheu suas coisas na bandeja e despejou tudo na lixeira. Ao voltar à mesa, viu Alberico anotar no tal companheiro dele.

—Primo, precisamos espalhar esta idéia! — Alberico se iluminou com a lâmpada das grandes invenções. — Se convencermos as pessoas de que não cabem tantos carros nas ruas, deixarão seus carros na garagem. Menos fumaça, mais ar puro, deixe o carro em casa. Que tal?





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Caco podia ver pelos olhos do primo Alberico, estampado em todos os cantos da cidade — Menos fumaça, mais ar puro, deixe o carro em casa. As pessoas usariam o carro somente em caso de necessidade, nos finais de semana, ou em viagens, e não à toa, para qualquer coisa, como ir à padaria da esquina, por exemplo. Aquilo parecia mais uma das maluquices do primo Alberico.

— Até que seria legal ver os motoristas dos ônibus e dos caminhões como donos das ruas. Aí sim, ninguém conseguiria andar.

— Com o caminho livre, não precisariam brigar tanto por uns centímetros de asfalto.

Caco fez cara de entendido. No fundo concordava com o primo, mas achava melhor não deixar que percebesse isso.

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