Terça-feira, 5 de Agosto de 2008

02 - Um menino de ouro








Refeito do susto, de alguma forma conformado com sua sorte, Caco enfiou seus livros e cadernos na mochila e partiu para a escola. Pior do que ter de agüentar o primo Alberico era chegar atrasado. As professoras não deixavam ninguém entrar depois do sinal. Ficar fora da aula significava ter de ouvir um sermão daqueles na sala do coordenador, seu Demóstenes, o terrível. Caco sabia histórias de castigos horríveis, como preencher centenas de linhas com a frase: “Não devo chegar atrasado à escola”, repetida até o lápis virar um toquinho minúsculo na mão.

Se isso tudo era verdade, Caco não sabia, se enfiou no primeiro ônibus que passou, mesmo lotado. Pensou no primo Alberico com sua pança de gorducho, tentando ocupar o espaço inexistente entre os passageiros.

Antes de entrar na escola, Caco foi até a banca de revistas da esquina e comprou seu chicle preferido, com tatuagens auto-colantes. O sabor de hortelã preencheu sua boca, prolongou a sensação refrescante da pasta de dentes.

Os garotos continuavam a chegar e todos se reuniam em frente ao portão, soprando bolas de mascar como sapos numa lagoa. O sinal finalmente soou e todos cuspiram suas gomas no piso de pedras irregulares. Havia tantas, amassadas pelos pedestres que estavam por quase toda a calçada.

A manhã seguiu numa sucessão de contas, exercícios, leituras, ditados. Quando veio a hora do recreio, Caco ainda não tinha a solução de seu problema. Enquanto abocanhava seu sanduíche, ouvia os colegas comentarem sobre a grande chance de logo mais.

— O treinador da escola vai assistir ao treino! — Pitoco via a possibilidade de mostrar seu jogo.

— Até comprei tênis novo! — Marquito o exibiu, impecável.

— Então vamos batizar! Pisem nele! — gritaram todos.

Lá se foram, correndo, atrás de Marquito, ver quem botava a marca dos pés primeiro naquele tênis limpinhos. Todos menos um. Caco permaneceu sentado no muro, esperando que o sol fraco de inverno lhe desse uma luz. Como poderia ir ao aeroporto com sua mãe, buscar Alberico e participar do treino, ao mesmo tempo?

Dizem que aquilo que não tem remédio, remediado está. Isso quer dizer que muitos problemas não têm solução e o melhor é deixá-los de lado e fazer o que tem de ser feito. Caco assistiu às aulas tentando não pensar mais no tal treino, mesmo na hora de ir embora, quando todos combinavam as jogadas e os gols que encheriam os olhos do treinador.

O pátio se esvaziou, os alunos correram para suas conduções a fim de chegar o quanto antes em casa, almoçar, descansar um pouco e retornar para o grande momento de triunfo. Só Caco não tinha nenhuma pressa, embora dona Cândida tivesse mencionado bife acebolado para o almoço, o prato predileto de seu obediente e amado Carlos Alberto.

— Como foi o dia na escola? — ela disse, puxando conversa.

— Um saco — Caco respondeu sem muito ânimo.

— Seu primo chega às quatro horas. Deve ser o máximo viajar de avião, não acha?

Caco não achava nada.

— Alberico é um menino de ouro, vocês vão se dar muito bem.

Um suspiro foi o máximo que Caco conseguiu diante do inevitável. Agüentar o primo caipira já era o suficiente, mas ouvir elogios de sua mãe àquele gorducho da roça, isso já estava passando dos limites.

— Esse assunto de Alberico já encheu! Dá pra falar de outra coisa?

— Claro, que tal falarmos de suas notas? Aquele boletim parece que está com sarampo de tantas pintas vermelhas.

O bife estava ótimo, mas o acompanhamento nem tanto. Caco empurrou o prato.

— Estou sem fome.

— Talvez Alberico possa ajudar você nos estudos.

— Ele já está me atrapalhando. Mamãe, a senhora quer, por favor, parar de falar nisso? Vou vomitar desse jeito!

Dona Cândida conhecia os limites de seu filho, aquele era um sinal claro de que os havia ultrapassado. O melhor era deixá-lo em paz. Conhecia seu gênio explosivo, herança do pai, um militar enérgico e disciplinado que treinava recrutas para sobreviverem na selva.

— Está bem, não digo mais nada, mas você precisa melhorar na escola, isso não tem discussão. Seu pai vai ficar uma fera quando olhar seu boletim.

— Papai nem disse quando volta. Posso resolver isso sozinho, se você e o primo Alberico não me atrapalharem, é claro!

Caco se levantou encerrando o almoço e a conversa. Deixou seu prato na pia e subiu para o último refúgio, seu quarto. Logo agora que estava em plena forma e podia conseguir um lugar no time, serviria de babá para um marmanjão. Além de tudo, dividiria seu quarto por uma semana inteira, uma longa semana que ficaria para sempre em sua memória.

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