Quarta-feira, 27 de Agosto de 2008

15 - Não vai sobrar nada














Quando dona Felícia saiu, Caco já estava pendurado no pescoço de Alberico.

— O que está fazendo? Ela vai trazer a lista da cidade inteira pra nós. Isso não vai mais acabar?

— Já disse, primo, se não quiser me acompanhar, vou sozinho.

Caco largou o pescoço de Alberico um pouco antes de dona Felícia voltar.

— Está aqui, endereços e telefones dos lugares que lidam com o lixo e a reciclagem. Se quiserem, posso conseguir que acompanhem o caminhão da coleta seletiva. Será um passeio e tanto.

Alberico pegou a lista e a guardou dentro do caderno de anotações. No rosto de Caco dava para se perceber seu arrependimento.

— Obrigado dona Felícia, a senhora nos ajudou muito. — Alberico disse, abrindo seu sorriso simpático, cheio de dentes.

Dona Felícia ficou satisfeita.

— Podem dizer que falaram comigo. O pessoal é muito legal, vocês vão gostar.

Caco saiu sem dizer mais nada, pois tudo se voltava contra ele. Nestes casos, é melhor ficar calado mesmo.

Apanharam o ônibus e foram para casa. Lá, dona Cândida os esperava com as panelas cheias de comida.

— Como não vieram para o almoço, achei que estariam com fome.

Alberico foi o primeiro a lavar as mãos e o rosto.

— Estou morrendo, tia Cândida.

— E você, Caco, está tão quieto. Não tem nada pra dizer?

Caco viu Alberico servir uma montanha de comida em seu prato.

— Acho que não vai sobrar nada pra pôr no lixo.

Dona Cândida não entendeu nada, mas ficou satisfeita ao ver os dois meninos se entendendo. Isso bastou para que pudesse sentar-se em frente ao televisor com a alma em paz e assistir as brigas que o capítulo da novela prometia. Os meninos subiram para o quarto depois de rasparem os pratos. Antes, porém, Alberico lavou tudo, esse era seu costume.

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