Sexta-feira, 22 de Agosto de 2008

12 – Eu já sabia














Dona Cândida não entendeu nada, mas ficou satisfeita vendo os dois meninos se entendendo. Isso bastou para que pudesse sentar-se em frente ao televisor com a alma em paz e assistir as brigas que o capítulo da novela prometia. Os meninos subiram para o quarto depois de rasparem os pratos. Antes, porém, Alberico lavou tudo, esse era seu costume.

Os livros abertos sobre a escrivaninha não deixavam Caco pensar em mais nada, a não ser que aquela matéria toda tinha de entrar na sua cabeça, se quisesse sobreviver à chegada de seu pai. Alberico percebeu as dúvidas do primo e decidiu falar no assunto, mesmo contrariando as recomendações quanto ao humor de Caco.

— Você está precisando de ajuda, não é?

Caco o encarou furioso, mas em seguida concordou com a cabeça.

— Posso ajudar você, se quiser é claro — Alberico jogou o anzol com as iscas, como lhe foi ensinado por gerações de pescadores. — Tenho uma fórmula que não falha nunca. Quer ouví-la?

Caco estava cansado das andanças na cidade, mas sua situação na escola exigia dele mais este sacrifício.

— Não sou muito bom com fórmulas — reconheceu para surpresa de Alberico.

— A chave de tudo é essa mesmo, primo, descobrir no que você é bom. Garanto que, naquelas matérias que você mais gosta, suas notas são boas.

— Boas não, são ótimas!

— Então! Selecione aquelas que você não gosta e dedique mais tempo a elas.

— Lixo seletivo, não é?

— Mais ou menos. Repita os exercícios e os conceitos tantas vezes até que se tornem parte de sua vida. Nada resiste à repetição. Cada vez que se faz alguma coisa de novo, fica um pouco melhor. Você vai ver, de tanto repetir não só entenderá tudo, como acabará gostando. Já comprovei isso. A gente só não gosta das coisas porque não as entendemos.

— Mas isso é o mesmo que estudar, assim não vale. Nunca vi ninguém que estude ter notas em vermelho.

— Viu? Você mesmo sabe resolver seus problemas, nem precisa de mim.

— É claro, disso eu já sabia.

Alberico esticou o colchonete, o lençol e o cobertor.

— Boa noite! Amanhã teremos um dia cheio, primo.

— Caco já disse... Ah, deixa pra lá. Boa noite, primo Alberico.

Alberico respondeu com um ronco, era o primeiro armário sendo arrastado. Caco suspirou fundo, mais uma noite daquelas o esperava. Foi quando teve uma idéia brilhante.

— É isso, algodão!

Foi ao banheiro, abriu o armário e apanhou dois chumaços, tampou os ouvidos. Isso de ter boas idéias até que é legal.

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