08 - Duas palavras mágicas
— O que você está fazendo, posso saber? — Caco se aproximou de Alberico que levou um susto.
— Ah! É você, primo. Tô só ajudando... Estes chicles jogados no chão levam anos para desaparecerem. No mar levariam mais de cinco anos.
Caco percebeu seus colegas se aproximarem.
— Quer, por favor, parar com isso?
Pitoco foi o primeiro a chegar.
— É seu parente, Caco? Não sabia que tinha gari na família?
Alberico abriu um sorriso tão grande quanto sua inocência.
— Sou o Alberico, primo de Carlos Alberto — disse, estendo a mão para Pitoco que não quis nem chegar perto.
Marquito, que tinha os tênis sujos, apertou a mão de Alberico.
— Eu sou o Marcos, mas todos me chamam de Marquito.
— Sei, um apelido como o do meu primo, não é Caco?
Caco estava vermelho de raiva, não conseguia dizer nada.
— O que você está fazendo? — Marquito foi logo perguntando.
— Estou ajudando a escola de vocês. Estas gomas cuspidas na calçada grudam na sola dos sapatos de quem passa por aqui, sujam tudo e demoram anos para se decompor. Quer experimentar raspar um pouco?
— Não sabia disso. Quer dizer que aquele chicle que eu mastiguei de manhã vai estar aí quando eu for pra faculdade?
— Quem sabe até quando seu filho estudar aqui, se ninguém limpar agora.
Pitoco apanhou o bastão de Alberico.
— Não quero que ninguém acuse meu filho de sujar a calçada da escola.
— Seu Demóstenes pode descobrir que fomos nós — Marquito lembrou bem.
— Quanta bobagem! — Caco não agüentava ouvir mais nada.
Na verdade, Caco não sabia se arrancava o bastão das mãos de Pitoco para dar uma surra nele, ou se esganava o primo intrometido. Foi quando Marquito e Pitoco começaram a brigar pelo bastão para limparem seus vestígios.
— Eu primeiro, sou quem mais gosta de chicle na turma! — gritou Pitoco, tentando agarrar o bastão que escapava das mãos.
— Eu estudo nesta escola há mais tempo, você chegou neste ano! — retrucou Marquito.
Foi Alberico quem colocou fim àquela briga.
— Calma, gente! Podem trazer seus próprios bastões, amanhã. Assim, todos ajudam, inclusive os outros colegas de vocês. Se todos colaborarem, ficará tudo limpo num piscar de olhos.
Marquito lembrou de uma coisa importante.
— Como vamos evitar que outros joguem mais chicle no chão?
— É simples, peçam para instalar cestas de lixo, assim terão onde jogar o chicle fora — Alberico tinha pensado nisso logo cedo, ao fazer suas anotações.
Caco não entendia mais nada. Seus colegas e Alberico discutiam formas de limpar a calçada como se conhecessem há muito tempo. Os outros colegas se juntaram à roda, até Mosquito quis saber o que estava acontecendo.
— Não se preocupe, Mosquito — Caco aproveitou a chance para caçoar do rival no time —, você não enxergaria um elefante palitando os dentes aqui na calçada.
— Elefantes não palitam dentes, seu boboca, usam fio dental.
Mosquito saiu rindo de Caco, era o único da turma que não gostava de chicles. Ele usava aparelho nos dentes.
Alberico deixou os meninos combinarem os últimos detalhes e aproximou-se de Caco.
— Vamos almoçar, primo? É por minha conta.
Duas palavras mágicas: comer e de graça. Era o que Caco precisava, além de sair daquela confusão o mais rápido possível. Alberico se postou ao lado do primo e acertou o passo com o dele. Logo estavam numa lanchonete, escolhendo o maior dos sanduíches da casa, acompanhado de batatas fritas e refrigerante.
— Seus colegas são bem legais, primo!
— Me chame de Caco, está bem?
Alberico deu de ombros e continuou a devorar a comida, mesmo tendo dificuldades com a caixinha de papelão que acondicionava seu sanduíche. Caco percebeu tudo e mostrou como fazer para tirar o pão de dentro da embalagem.
— Faça assim, vire a caixa, abra, ponha um guardanapo por cima, feche e, depois, vire de novo. Está vendo? É só puxar as pontas do guardanapo e o sanduíche vem para a sua mão.
— Viu, primo, quantas coisas pra aprender?
— Caco, me chame de Caco!
Como estava com a boca cheia, Alberico apenas concordou com a cabeça.

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