Quarta-feira, 13 de Agosto de 2008

07 - Dia difícil










Na sala de aula, a professora distribuía as provas aos apreensivos alunos. Sentado ao fundo de uma das fileiras Caco ouvia os cochichos dos colegas. Contavam vantagens sobre seus desempenhos no treino do dia anterior. Marquito era o único que não queria conversa, seus tênis novos não o ajudaram muito, pois além de sujá-los no areião do campinho, fora substituído logo no primeiro tempo e, ainda por cima, as questões diante dele pareciam impossíveis de resolver.

Na verdade, não era só Marquito que não tinha vontade de falar. Caco se sentia desamparado com aquela folha cheia de espaços em branco, muito parecida com sua memória, principalmente no que se referia às questões matemáticas. Porém, sua maior preocupação era com o que diziam sobre o Mosquito, o menino franzino que se sentava bem na frente, quase colado à lousa, o que usava óculos de aros grossos e lentes maiores ainda. Era ele quem ocuparia a posição que por direito e merecimento deveria ser de Caco. Não podia aceitar perder a posição para um Mosquito qualquer.

— O cara acertou um chute certeiro, bem no ângulo. O treinador até aplaudiu! — disse Pitoco, num exagerado entusiasmo.

Caco sabia que diziam isso para provocá-lo, e estavam conseguindo. Foi quando a professora reclamou lá na frente.

— Vocês aí atrás! A prova já começou, chega de conversa!

A bronca em Pitoco bastou para Caco se sentir melhor. Aos traidores, castigo. Mas o maior castigo seria para ele mesmo, caso não preenchesse corretamente as lacunas daquelas folhas e uma bela nota azul enfeitasse seu adoentado boletim de pintas vermelhas. Como ele já tivera sarampo, somente um dez em matemática o salvaria desta vez.

Depois de muito esforço e apenas a metade da prova mal resolvida, soou a campainha para a próxima aula. A professora de geografia aguardava na porta enquanto a de matemática recolhia as últimas provas, tendo quase que arrancá-las das mãos dos desesperados alunos. Caco entre eles.

Depois dos números e letras, vinham relevos e climas de lugares que sequer ouvira falar. Dias de prova também deveriam ser proibidos, pensou antes de colocar seu nome no alto da página. Sua memória estava mais deserta que o Saara, suas mãos mais geladas que o pólo norte e mais molhadas de suor do que a bacia amazônica. Dia difícil, aquele, e ainda por cima, no final de tanto suplício, o primo Alberico a esperá-lo na porta do colégio.

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