06 - Não vou atrapalhar
Quando o despertador anunciou a terça-feira, às seis horas da manhã, Caco mal conseguiu abrir os olhos. Demorou tanto a pegar no sono que o peso de suas pálpebras o impedia de ver os chinelos de pompons. Encontrou-os tateando, debaixo da cama. Isso o fez lembrar do primo Alberico que também deveria estar dormindo no colchonete, bem onde agora estavam seus pés. Quem sabe o primo tivesse sido apenas um sonho? Afinal, de olhos fechados, a imaginação voa.
Esticou o pé, temendo chutar a bunda gorda do primo. Abriu o mais que pôde um dos olhos, não viu vestígios de ninguém. Caco se animou a abrir o outro olho, viu a monstruosa mochila recostada na parede, devolvendo o olhar carrancudo dele — primo Alberico poderia estar em qualquer lugar da casa.
Caco se levantou e enfiou os pés nos chinelos. Viu os pompons balançando com se estivessem felizes por serem vestidos. Caco resolveu dispensá-los, não seria louco de aparecer com aqueles chinelos ridículos na frente do primo.
Depois do ritual de todas as manhãs — fazer xixi, lavar o rosto, escovar os dentes —, Caco vestiu o uniforme do colégio e desceu até a cozinha. Alberico e dona Cândida conversavam distraidamente e quase não percebem a presença do sonolento Caco à mesa.
— Você está aí, filho?
— Não, mamãe, é uma miragem. Na verdade estou na minha cama, debaixo das cobertas quentinhas.
Alberico serviu o cesto de vime com papel guardanapo.
— Mastigar acorda, é o que meu pai sempre diz, antes de sair pra pescar de madrugada.
— Deve ser bom ter um pai — Caco escorou o queixo para não desabar de sono sobre a mesa.
— Não ligue, Alberico — dona Cândida apanhou a manteiga e o açúcar. — O humor de Caco pela manhã é péssimo, à tarde piora um pouco, mas à noite, aí sim, ninguém agüenta.
Alberico abriu o seu sorriso largo enquanto enchia o cesto com as rabanadas.
— Não tem pão de frigideira, mãe? — Caco abriu os olhos para a diferença no seu café da manhã.
Dona Cândida se sentou, esperando Alberico servir sua caneca de café, como fez o garçom, na lanchonete do aeroporto.
— Seu primo preparou coisa muito melhor — ela disse, saboreando o primeiro pedaço. — Humm, que delícia!
Caco provou também, gostou, mas não disse nada. Bebeu o café e subiu para pegar as coisas da escola. Quando se despedia da mãe, Alberico apareceu com uma pasta, pronto para acompanhá-lo.
— Vou com você, primo!
Caco não entendeu nada. Tinha ficado bem claro que pela manhã ele ia à escola. Aquela história visita de primo estava indo longe demais. Será que ele queria ir à escola também?
— Caco! Já falei pra me chamar de Caco! — disse num rosnado.
Dona Cândida abaixou o volume do rádio e levantou o seu.
— Carlos Alberto!
Caco baixou a cabeça, esperando o pior.
— Sim , mamãe...
— Seu primo vai acompanhar você até a escola e depois vai apanhá-lo na saída. Ele tem que visitar alguns lugares e você vai com ele. Estamos conversados?
— Sim mamãe, só achei que...
Alberico não se incomodava com nada.
— Não vou atrapalhar, primo, quer dizer, Caco — corrigiu antes de causar uma tragédia. — Só vou com você pra ir me acostumando com a cidade. Depois, não precisa me acompanhar, estará livre pra fazer o que quiser.
Aquilo era melhor do que nada. Uma possibilidade de liberdade se abria no horizonte negro daquela semana. O tal primo não era de todo ruim, com alguma sorte estaria dispensado para, enfim, lutar por uma vaga no time titular da escola.
Assim, foram os dois para o ponto de ônibus. Alberico observava e anotava cada detalhe do que via. As ruas cheias de carros, os caminhões de todos os tamanhos a ocupar o espaço, os ônibus enfileirados na faixa interna da rua.
Logo chegou um ônibus que ia para a escola de Caco. Não estava cheio e puderam se sentar no banco, lado a lado. Caco ofereceu o lugar da janela, o que agradou a Alberico imensamente. Assim podia ver tudo, e o que é melhor, em movimento.
Chegaram à rua da escola em poucos minutos. Caco foi direto à banca de revistas e comprou seu chicle. Mordeu a metade e ofereceu a outra a Alberico que recusou. Caco abocanhou o outro pedaço e se juntou aos colegas. Os sapos se reuniram diante do portão e logo Alberico viu as bolas crescerem e, tloc, estourarem, para em seguida voltarem a se encher e, tloc, estourarem novamente. O sinal soou, todos cuspiram as gomas no chão. Alberico observava a tudo e anotava em seu caderno.
Caco se despediu do primo com um discreto aceno e foi atrás dos colegas para o pátio. Alberico examinou o piso em frente à escola, anotou algo depois fechou o caderno e foi embora.

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