Sexta-feira, 8 de Agosto de 2008

04 - Não é do seu tempo





No aeroporto, dona Cândida se sentia como num palácio, em meio a tanta gente alinhada a empurrar suas malas em carrinhos. Alguns artistas conhecidos esperavam a vez nas filas, diante dos balcões, isso a deixou ainda mais excitada.

— Olha, filho! Aquele lá que trabalhou naquela novela, como era mesmo o nome?

Caco estava mais interessado nas belas aeronaves estacionadas no pátio. Pareciam enormes animais pré-históricos, com seus narizes pintados de preto e o corpo cheio de janelinhas redondas, feito escamas de peixe. Ao longe, outro grande animal se preparava para decolar. Depois de rugir poderosamente, o avião deslizou pela pista e pulou no ar como se fosse uma pluma, enquanto outro, de menor porte, se aproximou da cabeceira da pista para seguir o mesmo caminho.

— Já são quatro horas, seu primo já deve ter chegado!

Caco tinha a esperança que isso fosse verdade e um desencontro resolvesse tudo, pois acidentes aéreos não são tão comuns assim.

— Podemos perguntar ali - Caco apontou para o balcão de informações.

A moça os atendeu prontamente. Em aeroportos atrasos ocorrem quase sempre. Dona Cândida respirou aliviada e escolheu um banco para sentar enquanto aguardassem a chegada da ilustre figura.

— Está com fome? - dona Cândida e suas palavras mágicas.

Com um aceno afirmativo, Caco pôs-se de pé e indicou uma lanchonete no fundo do corredor. Quem sabe, a idéia do desencontro ainda desse certo?

— Vamos ter de ser rápidos, não podemos perder seu primo!

— Não se preocupe, mamãe, ele é bem capaz de nos achar no meio de uma multidão.

Dona Cândida pediu uma taça de café com leite e um pedaço de torta de chocolate. Caco preferiu refrigerante e hambúrguer.

Dona Cândida sentia-se nas nuvens:

— Adoro comer fora. Acho tão charmoso, fazer o pedido, comer e deixar o resto para o garçom cuidar. Há tanto tempo não vamos a um restaurante.

— Papai prefere comer lesmas no meio do mato.

— Não fale assim, é o trabalho de Amâncio. Você deveria é ter orgulho de seu pai, em vez de ficar aí, só criticando.

— Se ele pode reclamar do meu boletim...

— Seu pai pode e faz isso para o seu bem. Não queremos nosso filho amado atrás dos colegas da escola. Queremos um futuro maravilhoso pra você.

— O problema é o meu presente. Como vou conseguir uma vaga no time se nem posso ir ao treino?

— Lá vem este assunto de novo. Parece uma vitrola enguiçada.

— Vitrola? Posso saber o que é isso?

— Não é do seu tempo. É como se chamavam os aparelhos toca-discos.

— Os CDs de antigamente?

— Nem tão antigamente assim. Já terminou seu lanche? É melhor irmos para o setor de desembarque, seu primo deve estar chegando.

— Poderia ficar por aqui, comendo até amanhã. Isso está uma delícia - encheu a boca com o último naco do sanduíche.

— Que má vontade, Carlos Alberto!

Nem mais uma palavra era necessária para fazer Caco acompanhar sua mãe até o portão de desembarque. Lá dentro da sala, uma esteira rolante se enroscava nas pernas das pessoas, trazia as malas e objetos dos passageiros que desciam dos enormes aviões estacionados na parte externa. Dona Cândida enfiou-se entre aqueles que aguardavam do lado de fora. Animados, acenavam na direção dos passageiros que não sabiam se cuidavam as malas ou respondiam aos acenos dos parentes e amigos. Em apenas alguns minutos, dezenas de potenciais Albericos ameaçaram arruinar de vez as poucas esperanças de livrá-lo daquela penosa obrigação.

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