Segunda-feira, 11 de Agosto de 2008

05 - Em órbita






Caco reconheceu sua derrota quando viu dona Cândida acenar freneticamente.

— Olha, seu primo chegou!

Caco olhou, mas sem querer ver. Lá estava ele, o primo Alberico. Calças jeans, camisa de botão, um verdadeiro garoto da cidade.

— Ele ainda parece um caipira? — dona Cândida o espetou com a pergunta.

Caco achou melhor ficar calado e não aceitar a provocação, nem dar o prazer de mostrar seu reconhecimento. Aquele garoto não parecia ter limpado o galinheiro a menos de uma hora.

Dona Cândida acenava vigorosamente. Alberico respondeu com entusiasmo, enquanto esperava sua mala aparecer sobre a serpente rolante.

— Na certa trouxe suas coisas numa caixa de papelão ou numa trouxa de roupa amarrada num pedaço de pau — Caco aproveitou a chance para revidar.

Após alguns angustiantes minutos, Alberico apareceu no saguão com uma bela mochila de armação pendurada às costas.

Dona Cândida abriu os braços e envolveu o sobrinho num demorado abraço.

— Como você cresceu, meu filho!

Depois que se separaram, Caco se postou na mira do avantajado primo.

— Então este é o meu primo Carlos Alberto?

— CACO — respondeu, mantendo a distância.

Dona Cândida tentou quebrar o gelo antes que um iceberg se formasse.

— Caco vai ajudar você, Alberico.

— Vou precisar, tenho pouco tempo e muito trabalho.

— Infelizmente só tenho as tardes livres, vou à escola pela manhã — Caco tentou se esquivar.

Alberico sorriu cheio de dentes e simpatia, ajeitando a mochila pesada nas costas.

— Qualquer ajuda será bem-vinda.

— Você deve estar cansado, deixe Caco levar isso pra você — dona Cândida foi enganchando o braço ao de Alberico, se dirigindo à saída. — Como estão todos na sua casa? Há tanto tempo não temos notícias.

E lá se foram, sem nem ao menos perceberem que Caco ficara para trás, entre passageiros apressados, gente perdida atrás de alguém que deveria encontrar e tripulantes cansados, loucos por um táxi e uma cama para esticarem os ossos.

Era um mau começo. Caco tentou acomodar a pesada mochila nas costas. Ela era imensa, escorregava e caía toda hora. Por várias vezes quis imitar a postura do primo que, sem dificuldades, pusera aquela monstruosa mochila nas costas e caminhara firme como os recrutas de seu pai em meio à mata. Resolveu arrastá-la. O piso encerado daquele aeroporto não se importaria com um pouco mais de brilho e nem aquela gente apressada com os esbarrões da mochila.

Caco ficou surpreso ao ver sua mãe e Alberico na fila dos táxis. Aquele luxo todo não fazia parte dos costumes de sua família. Ao chegar, arrastando a pesada mochila, soube que o primo tinha ganhado dinheiro para todas as despesas, incluindo transporte e alimentação, pois a hospedagem ficava por conta dos parentes da cidade grande.

— Não se preocupem, o dinheiro é pra isso mesmo. Vamos de táxi, assim chegamos mais cedo e botamos a conversa em dia.

Aquele programa estava saindo melhor do que dona Cândida esperava, aeroporto, lanche, gente elegante, famosa e táxi, a vida tinha lá suas recompensas.

O taxista abriu a porta cerimoniosamente para os passageiros entrarem e acomodou a mochila no porta-malas. Caco se sentou no banco da frente, era uma maneira de se colocar à parte daquela conversa fiada que rolava solta no banco de trás. Durante todo o caminho ouviu o primo dar as mensagens dos parentes que mal ouvira falar. O motorista seguia vagarosamente, na certa, isso aumentaria o preço da viagem. Se o primo estava mesmo recheado de dinheiro, que gastasse tudo de uma vez e voltasse logo para onde veio.

Passaram por um campinho. Caco lembrou, àquela hora, seu lugar no time já estava ocupado por algum perna-de-pau. Daria tudo para jogar a partida do próximo sábado, fazer o gol da vitória. Quem sabe até com seu pai na torcida, vibrando e reconhecendo sua vocação de artilheiro.

Mas aquilo era sonho. O capitão Amâncio não deixaria sua tropa abandonada no meio da selva, não poderia jogar se o treinador não o escalasse e nem seria escalado se não treinasse.

— É na próxima rua, moço! — dona Cândida quase ia perdendo o caminho.
— Carlos Alberto, você hein! nem pra indicar o caminho ao motorista. Em que mundo você está, no da Lua?

Caco se manteve em órbita até o carro estacionar em frente a sua casa. Gastar o dinheiro do primo era uma boa alternativa para despachá-lo mais cedo, porém, percebeu logo que seria inútil, diante do enrolado de notas que o primo sacou do bolso para retirar uma e pagar o táxi. O motorista fez tudo novamente, abriu as portas, o porta-malas e, contrariado, devolveu as moedas do troco a Alberico, aguardando com a mão estendida.

— Me recomendaram pra não facilitar com dinheiro — enfiou as moedas num dos bolsos da mochila.

Caco ouviu o primo elogiar a casa e viu a satisfação de dona Cândida.

— Tenho uma pequena horta nos fundos. Talvez você possa dar algumas dicas, os legumes que colho são tão pequenos!

— Tamanho não é documento, tia, o que importa é a quantidade. O espaço deve ser bem utilizado para se colher o máximo.

Aquela conversa prometia durar horas, ainda mais regada a chá e bolo. Caco estava sem fome e menos ainda interessado em cenouras e couves, deixou-os se fartando com aquela baboseira toda, se trancou no quarto para aproveitar o último momento de privacidade daquela semana.

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