01 - Bom menino
Quando o relógio despertador soou o alarme, às seis horas da manhã, o primeiro pensamento de Caco foi se deveriam proibir segundas-feiras. Com o frio que fazia, poderiam decretar feriado, assim curtiria o calor das cobertas por mais tempo. Se não fosse o cheiro de café que vinha da cozinha, o maravilhoso pãozinho aquecido na frigideira, a tigela de frutas com cereais, e a tal lei sobre inícios de semana vigoraria por votação unânime. Sabia do apoio de muitos, como os seus colegas da escola, por exemplo.
Já que estava acordado e sua barriga rugia como a de um leão, resolveu dar mais uma chance para aquela segunda-feira. Levantou-se, enfiou o par de chinelos e agradeceu por serem de pelúcia com pompons de lã em cima. Na verdade eram ridículos, mas aqueciam bem os pés. O mesmo não se podia dizer da água que molhou seu rosto, quase congelando a ponta do nariz e serviu para acordá-lo de vez. Apanhou a escova, colocou o creme dental e escovou os dentes com energia. Lindos dentes, lindos sorrisos, sua mãe sempre dizia.
— Lindos dentes...
— Já sei, mamãe, lindos sorrisos. Não sei o que há de tão bonito num dia cinza como o de hoje. Odeio segundas-feiras.
Dona Cândida vigiava o pão que aquecia sobre a chapa aquecida da frigideira enquanto tentava sintonizar a estação de rádio. Todo o dia era a mesma coisa, notícias, trânsito, propaganda, e muita fofoca sobre artistas de televisão.
— Você reclama da segunda, da terça, da quarta-feira, nunca ouvi você falar mal dos sábados e dos domingos — disse, virando as fatias tostadas para cima.
— Nos finais de semana posso dormir o quanto quero.
As fatias de pão pousaram no cesto de vime forrado com guardanapo de papel. Imediatamente, foram para a mesa. Dona Cândida assoprou o leite fervido e encheu a caneca de Caco. Em seguida, um fiapo de café escureceu a poção abençoada de todas as manhãs.
— Vá comendo enquanto está quente.
Nem precisava insistir. Caco cobriu o pão com uma grossa camada de mel e devorou tudo num piscar de olhos. Logo, outras duas fatias quentinhas estavam à disposição, junto com o prato com cereais e frutas.
Nada como uma bela refeição para mudar o pior dos humores. Quando Caco depositou a louça suja dentro da pia, a segunda-feira já não parecia tão horrível assim. Afinal, um dia inteiro estava à sua espera.
Dona Cândida ensaboava as xícaras quando, do rádio, ouviu-se as buzinas da chamada para mais um boletim do trânsito.
— Pode desligar pra mim, filho?
Caco alcançou o botão num movimento ágil e preciso.
— Claro, mãe, é sempre a mesma coisa, engarrafado aqui, ali, em toda parte.
Caco se encarregou dos farelos sobre a toalha da mesa. Dona Cândida fechou a torneira da pia, a espuma se avolumou sobre a louça mergulhada.
— Sabe quem ligou, ontem? — ela disse sem dar ênfase, como se não tivesse dito nada.
Caco deu de ombros. Dona Cândida mediu melhor aquela reação.
— Seu primo, o Alberico.
— O caiçara?
— Você devia seguir o exemplo do Alberico.
— Exemplo? Agora eu tenho que capinar e cuidar de porcos, de galinhas?
— Seu primo ganhou um concurso, vem passar uns dias conosco.
A segunda-feira que prometia, decididamente, estava arruinada. Caco desabou na cadeira enquanto sua mãe continuava a decretar a pior das leis.
— Alberico ganhou passagens de avião, escolheu conhecer nossa cidade. Vai fazer uma pesquisa para a escola, não sei bem do que se trata. Eu garanti a ele que você o ajudaria. Posso contar com você, não é Carlos Alberto?
Quando era chamado desta forma não havia outra alternativa, a não ser obedecer. Quem estava sendo chamado era o menino responsável, incapaz de causar transtornos a quem quer que fosse, principalmente à sua mãe.
— E então, Carlos Alberto, conto com a sua ajuda?
Caco, ou melhor, Carlos Alberto, concordou com a cabeça, não sentia vontade de mover um músculo sequer, muito menos falar.
— Bom menino! — disse dona Cândida, alisando os cabelos desgrenhados de Caco. — Agora suba e termine de se arrumar, vai ter um dia cheio. À tarde, vamos buscar seu primo no aeroporto.
Caco, como que hipnotizado, olha a torneira se abrir e toda aquela água escorrer para cima da louça ensaboada. Logo naquele dia haveria treino do time de futebol de sua classe, era a chance de conseguir uma vaga de titular no ataque da quarta série B. Aquilo, definitivamente, não estava nos seus planos.
Caco subiu as escadas, evitando mais notícias ruins. Aquele não seria só um dia cheio, mas uma semana transbordante de programas aborrecidos, ao lado do mais chato de todos os parentes que conhecia — Alberico, o caiçara.
Já que estava acordado e sua barriga rugia como a de um leão, resolveu dar mais uma chance para aquela segunda-feira. Levantou-se, enfiou o par de chinelos e agradeceu por serem de pelúcia com pompons de lã em cima. Na verdade eram ridículos, mas aqueciam bem os pés. O mesmo não se podia dizer da água que molhou seu rosto, quase congelando a ponta do nariz e serviu para acordá-lo de vez. Apanhou a escova, colocou o creme dental e escovou os dentes com energia. Lindos dentes, lindos sorrisos, sua mãe sempre dizia.
— Lindos dentes...
— Já sei, mamãe, lindos sorrisos. Não sei o que há de tão bonito num dia cinza como o de hoje. Odeio segundas-feiras.
Dona Cândida vigiava o pão que aquecia sobre a chapa aquecida da frigideira enquanto tentava sintonizar a estação de rádio. Todo o dia era a mesma coisa, notícias, trânsito, propaganda, e muita fofoca sobre artistas de televisão.
— Você reclama da segunda, da terça, da quarta-feira, nunca ouvi você falar mal dos sábados e dos domingos — disse, virando as fatias tostadas para cima.
— Nos finais de semana posso dormir o quanto quero.
As fatias de pão pousaram no cesto de vime forrado com guardanapo de papel. Imediatamente, foram para a mesa. Dona Cândida assoprou o leite fervido e encheu a caneca de Caco. Em seguida, um fiapo de café escureceu a poção abençoada de todas as manhãs.
— Vá comendo enquanto está quente.
Nem precisava insistir. Caco cobriu o pão com uma grossa camada de mel e devorou tudo num piscar de olhos. Logo, outras duas fatias quentinhas estavam à disposição, junto com o prato com cereais e frutas.
Nada como uma bela refeição para mudar o pior dos humores. Quando Caco depositou a louça suja dentro da pia, a segunda-feira já não parecia tão horrível assim. Afinal, um dia inteiro estava à sua espera.
Dona Cândida ensaboava as xícaras quando, do rádio, ouviu-se as buzinas da chamada para mais um boletim do trânsito.
— Pode desligar pra mim, filho?
Caco alcançou o botão num movimento ágil e preciso.
— Claro, mãe, é sempre a mesma coisa, engarrafado aqui, ali, em toda parte.
Caco se encarregou dos farelos sobre a toalha da mesa. Dona Cândida fechou a torneira da pia, a espuma se avolumou sobre a louça mergulhada.
— Sabe quem ligou, ontem? — ela disse sem dar ênfase, como se não tivesse dito nada.
Caco deu de ombros. Dona Cândida mediu melhor aquela reação.
— Seu primo, o Alberico.
— O caiçara?
— Você devia seguir o exemplo do Alberico.
— Exemplo? Agora eu tenho que capinar e cuidar de porcos, de galinhas?
— Seu primo ganhou um concurso, vem passar uns dias conosco.
A segunda-feira que prometia, decididamente, estava arruinada. Caco desabou na cadeira enquanto sua mãe continuava a decretar a pior das leis.
— Alberico ganhou passagens de avião, escolheu conhecer nossa cidade. Vai fazer uma pesquisa para a escola, não sei bem do que se trata. Eu garanti a ele que você o ajudaria. Posso contar com você, não é Carlos Alberto?
Quando era chamado desta forma não havia outra alternativa, a não ser obedecer. Quem estava sendo chamado era o menino responsável, incapaz de causar transtornos a quem quer que fosse, principalmente à sua mãe.
— E então, Carlos Alberto, conto com a sua ajuda?
Caco, ou melhor, Carlos Alberto, concordou com a cabeça, não sentia vontade de mover um músculo sequer, muito menos falar.
— Bom menino! — disse dona Cândida, alisando os cabelos desgrenhados de Caco. — Agora suba e termine de se arrumar, vai ter um dia cheio. À tarde, vamos buscar seu primo no aeroporto.
Caco, como que hipnotizado, olha a torneira se abrir e toda aquela água escorrer para cima da louça ensaboada. Logo naquele dia haveria treino do time de futebol de sua classe, era a chance de conseguir uma vaga de titular no ataque da quarta série B. Aquilo, definitivamente, não estava nos seus planos.
Caco subiu as escadas, evitando mais notícias ruins. Aquele não seria só um dia cheio, mas uma semana transbordante de programas aborrecidos, ao lado do mais chato de todos os parentes que conhecia — Alberico, o caiçara.

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